Impacto na economia municipal
A estagnação de auxílios sociais e os possíveis cortes nos benefícios previdenciários podem ter efeitos devastadores na economia de municípios, especialmente aqueles localizados no interior do Brasil. Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), revela que os auxílios, como aposentadorias, o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), representam uma parte significativa da renda das famílias mais vulneráveis, chegando a constituir quase 50% de seu orçamento.
Os benefícios sociais são cruciais para a circulação de dinheiro no comércio local, uma vez que as famílias utilizam esses recursos principalmente para aquisição de bens de primeira necessidade. Essa dinâmica não apenas sustenta o comércio, mas também garante a manutenção de empregos e contribui para a arrecadação municipal. Assim, a manutenção dos auxílios sociais é vital para o pleno funcionamento econômico dessas localidades.
Cenários críticos de retração
O levantamento também sugere que, sem reajustes nos auxílios sociais, a renda nas áreas do interior poderá sofrer uma queda significativa nos próximos três anos, podendo cair entre 6,8% e 10,8%. O estudo comparou a evolução dos benefícios em um cenário de crescimento real entre 2022 e 2025 com o período de 2019 a 2022, que se caracterizou por congelamento and inércia nos salários.

Regiões como o interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí poderiam enfrentar as perdas mais severas, com reduções de até 18% na renda total se os atuais aumentos nos benefícios forem suspensos. Outros estados, como Amazonas, Sergipe e Pernambuco, também apresentariam perdas significativas, em torno de 15%. Esses dados evidenciam que a situação se agrava à medida que nos afastamos dos centros urbanos, destacando a dependência desses municípios dos auxílios sociais para garantir a solidez de suas economias.
Consequências para a pobreza extrema
Além das repercussões econômicas, a estagnação de auxílios sociais impactará diretamente a pobreza. A economista Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP, alerta que qualquer aumento abaixo da inflação pode empurrar as famílias que já vivem na vulnerabilidade para a pobreza extrema. Isso é particularmente preocupante para as famílias que mantêm um rendimento de até 1,5 salário mínimo per capita.
O estudo projeta que a falta de parâmetros para aumento real dos benefícios poderá levar cerca de 2,7 milhões de pessoas à pobreza e 2,4 milhões à extrema pobreza nas áreas fora das regiões metropolitanas. Somente na Bahia, até 336 mil pessoas podem cair nas estatísticas da pobreza, seguidas por São Paulo e Minas Gerais, com números alarmantes. A continuidade e valorização dos auxílios sociais são, portanto, consideradas essenciais para a dignidade das famílias e a sobrevivência do comércio local no Brasil profundo.

